Publicado em: 15/01/2026
Uma criança de apenas 11 anos, antes vibrante, agora mergulhada em crises de ansiedade paralisantes, agressividade inexplicável e noites em claro. Este não é um caso isolado, mas o rosto de uma crise silenciosa que atinge o Ceará. O destino foi o Hospital Infantil Filantrópico (Sopai), em Fortaleza, onde a Ala de Psiquiatria Infantojuvenil (Posto 6) opera no limite máximo de sua capacidade.
O aumento vertiginoso na demanda por hospitalização revela uma realidade urgente: a saúde mental de nossas crianças e adolescentes está pedindo socorro.
Desde sua fundação em 2014, o Posto 6 do Sopai tornou-se a principal referência para os 184 municípios cearenses. No entanto, os dados de 2025 consolidam uma tendência preocupante de crescimento.
Salto nas Internações: Em 2025, foram registradas 693 internações, um aumento de 11% em relação às 622 hospitalizações de 2024.
Ocupação Máxima: A taxa média de ocupação da unidade é de 100%. Não há vagas ociosas; para cada alta, há uma fila de espera.
Média Mensal: Cerca de 55 crianças ou adolescentes são internados mensalmente por causas psiquiátricas na capital.
Diferente do que o senso comum pode sugerir, o perfil das internações mostra que o sofrimento psíquico vai muito além do consumo de substâncias.
90% dos casos: Envolvem transtornos mentais, crises severas de ansiedade, depressão, comportamentos de risco à vida (autolesão), além de crises relacionadas a transtornos do desenvolvimento e neurodiversidade (como TEA).
10% dos casos: São motivados pelo uso abusivo de álcool e drogas ilícitas.
Este dado de 90% acende um alerta sobre o impacto do isolamento social residual, o uso excessivo de telas e a falta de suporte emocional preventivo nas escolas e lares.
Para a dona de casa Maria Gorete, que veio do interior do estado para acompanhar o neto de 12 anos, a internação foi a última e necessária instância.
"A gente tentou de tudo no posto de saúde da cidade, mas quando ele começou a se ferir e não dormia mais, o medo tomou conta. O Sopai foi o nosso anjo da guarda, mas ver tantas crianças na mesma situação dói. Parece que o mundo está pesado demais para eles", desabafa Gorete nos corredores do hospital.
Especialistas apontam que o aumento de 11% nas internações não reflete apenas um "aumento de doenças", mas também uma melhora na rede de identificação — mais pais e professores estão percebendo os sinais e buscando ajuda. Contudo, a rede de atendimento ambulatorial (fora dos hospitais) ainda é o gargalo. Quando o tratamento preventivo falha, o hospital torna-se a única saída.